Sexta-feira, Julho 7j



¯[angelfish - mummy can't drive]

Here in my car
I feel safest of all
I can lock all my doors
It's the only way to live
In cars


Carros e as palavras compostas

Adoro dicionários. Tenho um aqui do meu lado (à "tiracolo") e sempre. É bom não ser pego de surpresa com as palavras traiçoeiras (embusteiras, diria Descartes sobre algo um pouco maior, sobre... Deus! ohhh) da nossa língua. Uma vez assistia ao show da CPI-de-alguma-coisa e o ótimo ACM Neto chamou um sujeito do PT de "vestaz". Veja que maravilha! E essa palavra nem tem aqui no meu Mini Aurélio Século XXI.

Dia desses passeava pelos campos maravilhosos das palavras, por entre fileiras de verbetes coloridos e multissemânticos. Bebericava do elixir dos significados à sombra dos grandes vocábulos. Ó maravilhoso sentido não nos guarda um verbete apontado in loco em uma página qualquer. Ó delicioso idioma fruto da miscigenação. Quantas histórias, mutações e metamorfoses não passou cada um? Uma vida, sem dúvida. Ó dúvida!

Enfim, à determinada página encontrei um desconhecido. Procurava por "proscrito" e conheci seus colegas de página "prosélito" (o sem noção), "proselitismo", "prosódia" e o importante "prosopopéia", o mais belo dentre eles.

Que alegria, uma página repleta de verbetes desconhecidos, só esperando para um contato com minha mente curiosa. "Levem-me ao seu líder" anunciou um dos engraçadinhos. Quanta vitalidade possuem essas palavrinhas sacanas!

Fiquei surpreso quando dei uma nota de dez e recebi três moedas de borda dourada e uma de cinquenta centavos como troco. Que roubo, em plena quinta-feira uma meia-entrada custa-me os olhos-da-cara! Pelo menos me rendeu um combo de quatro expressões compostas em uma só frase. Ainda sim acho caro. Ali descobri com a garota que se esforçava para não me dar atenção que o preço mais barato é na quarta-feira, quatro reais.

Caminhei vagarosamente em passos de sonâmbulo, ou melhor: em passos de zumbi dos filmes clássicos pós-Romero. Procurei a poltrona mais adequada, que fica exatamente no ponto onde todas as medianizes da sala se cruzam. Não sou adepto do Feng Shui, mas no cinema isso sempre funciona: primeiro localize o centro da tela, no sentido vertical. Dali você traça uma linha imaginária paralela ao solo do nosso planeta - o que não é fácil e exige experiência, já que nas salas stadium o chão é inclinado. Realizando isto corretamente você estará pronto para o segundo passo, ali mesmo na fileira "áurea" cruzada pela linha imaginária.

O segundo passo é fácil: sente-se bem no meio da fileira! Uma conta de soma e divisão resolve rapidamente este problema. Mas a olho também funciona quando você já tiver experiência no ofício. Pronto! Você está no ponto áureo da sala de poltronas vermelhas, preparado para o que der e vier.

Me sentei bem neste lugar.

Aguentei vários trailers dublados que endossaram minha repulsa a este procedimento, mas meu filme era legendado. Aliás, só no Barigui tem este último filme do romance Pixar-Disney com as vozes originais dos atores.

A coisa começa bem, com o ótimo curta O Homem de Uma Banda Só, ou A Banda de Um Homem Só, tanto faz, na verdade. Me lembrou o belíssimo curta exibido antes d'Os Incríveis, sobre de um animalzinho pulante.

Aqui percebo que meu post já está grande, então serei sucinto. Carros me decepcionou um pouco. É a clássica história para crianças que os vendedores imigrantes de outros estados tentam vender de porta-em-porta e dentro dos ônibus na cidade grande. Você é induzido a certa antipatia pelo herói no começo porque ele parece bobo, imaturo e um pouco arrogante. Daí, depois ele sofre uma grande derrota por causa disso, cai escada-a-baixo. Então começa uma provação, na qual ele deverá superar seus preconceitos e triunfar no final com uma bela lição de moral. Na jornada você conhecerá os arquétipos básicos: o sujeito experiente e ranzinza (para as discussões abobalhadas), a bela moça imaculada (para o par romântico), o ingênuo fracote (para melhor amigo) e o trapaceador (para arquiinimigo (sem hífen, mesmo)).

A trilha sonora é tão previsível quanto a própria história: músicas folk sobre as coisas simples da vida como o vento, a cachoeira e um pé de goiaba. Mesmo o recurso da prosopopéia nos carros é datado: quem não passou algumas sessões da tarde assistindo aos clássicos Herbie e Se Meu Fusca Falasse? Até Stephen King já fez das suas com Christine e Trucks: Comboio do Terror, que tentava explicar que os caminhões sanguinários andavam sozinhos por motivação alienígena... mas isto é outra história.

Eu queria ouvir a clássica Cars de Gary Numans, cujos versos iniciais estão em itálico logo acima. Mas não rolou. Talvez a música carregasse um ar sombrio demais para o nosso herói da Disney. Ao final, tudo me levou a lembrar que O Rei Leão é a obra-prima da "fábrica de sonhos" do rato chamado Mickey.

O roteiro, aliás, do Rei Leão é maravilhoso. Hoje, enquanto pensava na história, fiz algumas ligações com histórias messiânicas e bíblicas e cheguei a cogitar que o Simba fosse uma espécie de Moisés disneilândico. Mas logo abandonei a idéia, lembrando que Moisés era filho ilegítimo do faraós, Simba não. E ainda que os hebreus estavam em terras egípcias, e foi preciso levar todo mundo de volta numa jornada (um pouco exagerada, convenhamos) de quarenta anos, que incluiu feitos fantásticos como chuvas de pão ao nascer do sol, a travessia do mar aberto como as pernas arreganhadas de um frango assado e o enfrentamento com gigantes em Canaã. Simba só precisou matar o tio Scar e dar uns bofetões em algumas hienas bem-humoradas.

Mas o que me marcou mesmo foi a trilha sonora, e encerro meu post com esta lembrança para vocês, leitores fanáticos por Elton John. É dele a maravilhosa canção-tema sobre o ciclo da vida. Nessa época ele ainda não usava o brinco afirmando sua opção sexual. É também do Rei Leão a divertida Hakuna Matata e a preciosa Mighty Jungle "(animaue, animaue, animaue...) In the jungle, the mighty jungle, the lion sleeps tonight (animaue, animaue, animaue...)".

Em vez de ver Carros, vá ver Rei Leão novamente, emocionar-se com a morte de Mufasa no estouro da manada de búfalos. Chore quando o pai morto surgir para o filho predestinado no céu estrelado, lembrando-o de sua missão sagrada e deixando um rastro com a mensagem subliminar "sex" no ar. Emocione-se é o Rei! Ou isso, ou sorteie uma página do dicionário e boa leitura.

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P.S.: Estarei de férias a partir de hoje e volto dia 17, portanto fiquem à vontade para amontoar congratulações e elogios nos meus comentários. Prometo responder-lhes (ou não) assim que voltar.

j2:49 PMComablackComm: i